quarta-feira, Abril 09, 2014

Alheia à engrenagem

Ilha do Pico, cortesia de Abílio Henriques



Exponho-me na versão insensata de qualquer episódio.
Misturo as datas dos factos primordiais,
dos ritos de passagem,
do solstício, da lua nova.
Morro e nasço.
Desdobro atitudes,
evocando arautos de estranhas profecias,
alheia à engrenagem
montada por artífices de paradoxos e de teias. 

De Conjugar afectos, 1977

quarta-feira, Março 05, 2014

Borboletas

Fechei o livro lentamente.  

Há muito que não lia o autor. E gosto verdadeiramente do que escreve, mas a vida é assim… às vezes de quem mais gostamos é que estamos deveras afastados.

O poema tocou-me, confesso. Trouxe-me memórias escondidas de sentimentos que imaginava esfumados. E borboletas soltam-se em desejos ignorados.

Ultimamente não tenho pensado em sentimentos ocultos, daqueles que queremos fingir não existirem, mas que estão lá na profundeza do ser.

Como aquele sentimento inexplicável de borboletas no estômago.

Com o livro ainda a meu lado, fecho os olhos. As borboletas esvoaçavam em meu redor, tocando-me calmamente o cabelo, o rosto, o corpo faminto de recônditos desejos, mãos invisíveis percorrem-me o corpo, fazendo-me sorrir.

Dentro do sonho o meu sorriso é outro. Como que iluminado por pensamentos que não escondo porque se manifestam no rosto visível, nas mãos que me tocam, nos lábios que me saboreiam a pele e na sensação quente que me percorre as veias. 

Adormeço no sonho.

Pintura de Alex Gray

BORBOLETAS

Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas,
sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos
que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos
que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados

– mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem
se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer.
Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão
entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder
de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos

e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também;
e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago,
batendo asas contra todas as paredes do corpo – não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro

e para o passado. Românticos que se encontram quando nenhum
deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos
preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando
a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.

Poema de Francisco José Viegas, in "Se me Comovesse o Amor", 
pág. 36, Edição Quasi

domingo, Fevereiro 23, 2014

Um poema em forma de tango

"Tango Flamenco" óleo de Andrei Protsouk


Dou-te a minha mão
Prendes os meus dedos nos teus
E nesse entrelaçar que nos liberta
Uma dança fazemos.

Sentes este tango que te percorre os dedos?
Entrego-te a minha boca
Nos teus lábios amordaças os meus
E nesse beijo que nos incendeia
Uma sombra abatemos.

Porque sinto o Sol a percorrer-me o corpo, sem medos?
A ti me dou em forma de palavras
Para que nos teus sentires, despertes os meus
E nessa paixão que nos enlaça
Um poema satisfazemos.

Um poema...

Este poema mágico que sentimos dentro de nós
As tuas palavras com que saboreias a minha alma.

sexta-feira, Fevereiro 07, 2014

No silêncio da noite

Dança comigo
o desejo do teu corpo
o beijo rebelde
em teus lábios quentes.

Dança comigo
a loucura do momento
o sorriso do orgasmo final.

No silêncio da noite
dança comigo.

E sussurra-me
palavras de amor…

sexta-feira, Janeiro 31, 2014

De repente



E se de repente
o sol ajoelhasse a teus pés 
e prometesse
não mais
deixar de raiar?

E se de repente
a fúria do mar acalmasse 
e prometesse
não mais
provocar destruição?

E se de repente
o coração dos homens florisse 
e prometesse
não mais
provocar dor nos outros homens?

E se de repente
não mais
fosse preciso prometer
porque no mundo só o bem
ia prevalecer?

E de repente,
não mais,
guerras, fome, destruição,
a acontecer!

Assim… de repente!

quarta-feira, Janeiro 08, 2014

Ousadia

Vazia
minha alma
de pensamentos amorfos.

Cheio
meu coração
de sentimentos felizes.

Quedo-me
levitando na imaginação
da ousadia do sonho.

Amanheço
nos teus olhos como borboleta
nas pétalas de uma flor.

Anoiteço, sorrindo.

   (desligar a música de fundo para ouvir o vídeo, p. f.)

quinta-feira, Janeiro 02, 2014

Ei-lo:


2014!

Festejado por muitos, ignorado por aqueles para quem tudo continuará igual, ele chegou, em estrondo e festejos.

Confesso que o festejei em cima de uma cadeira, erguendo bem alto a taça dos meus desejos, com o meu neto Luca ao colo da mãe, sorridente e espantado, com tanto banzé. 

Que posso dizer que já não tenha sido dito ano após ano?

O melhor de tudo o que é possível é o que vos desejo!




Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado
O logro da aventura
És Homem, não te esqueças!
Só é a tua loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Poema de Miguel Torga in, “Diário XIII”



 Feliz Ano Novo




PS: ... desejo ainda que em 2014 o euromilhões fique muitas vezes em Portugal para que faça feliz muitas famílias portuguesas, em especial... a ti, a ti, a ti, a ti... que me lêem. :)

segunda-feira, Dezembro 30, 2013

… e 2013 está a findar.


Juntos, percorremos, nesta página virtual, vários momentos que nos alegraram ou entristeceram. É assim a vida e continuará a ser. Triste e alegre. Alegre e triste. 

Balanços de vida onde a esperança deverá ser a última a finalizar.

O saldo que se transfere para o ano que está a chegar, a muitos, é negativo.

O meu, confesso, é positivo: 2013 trouxe-me venturas que pensei nunca alcançar. E, transmuto-as, para os anos vindouros enquanto em mim tiver um sopro de vida.

Carpe diem.




Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
o dia, porque és ele.

Odes de Ricardo Reis,
 in "Obras Completas" de Fernando Pessoa,
Volume I, a págs. 291



domingo, Dezembro 22, 2013

É quando um homem quiser...

Com um abraço de carinho, desejo a visitantes, comentadores e, amigos em geral, Boas Festas na partilha dos afectos que nos une.   



Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher

Poema de José Carlos Ary dos Santos


quinta-feira, Dezembro 12, 2013

Dezembro

Último mês de um final que se anuncia
E voltam todos os outros envoltos nos mistérios em que se designam
E voltam as palavras e os desafios
E voltam os homens de boa e má fé
E voltam os sorrisos e as lágrimas
E voltam as promessas
(As que se cumprem e as que nunca se cumprirão)
E volta a Primavera e o Verão
E volta o sonho e a angústia
E sobe o poder e a fome continua
Voltam a verdejar as folhas que no chão caíram
E nos ramos agora despidos as flores recomeçam a florir.
Outro ciclo se inicia.

 

"Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se."
(Casimiro de Brito)