terça-feira, novembro 14, 2017

SOBREVIVÊNCIA

David Hoffrichter

Era o vento.
Era o vento que me empurrava.

Era o vento. Era o vento.
E em seus braços me deitava.

Era o fogo.
Era o fogo das suas mãos que me queimava.

Era a mente.
Era a mente que tudo suportava.

E a raiva. E o medo.
Nos caminhos que caminhava.

Era o mar.
Era o mar em cujas ondas navegava.

Era o mundo.
Era o mundo cuja dor governava.

Era a morte.
Era a morte que por milagre evitava.

Era a vida. 
Era a Vida por Amor apetecida.

E era eu.
Era eu que sobrevivia.


quarta-feira, outubro 18, 2017

Existem pedras

Imagem de autor desconhecido



EXISTEM PEDRAS

Existem pedras nos olhos
mas não as tragas
contigo

meu amor
e meu amigo
*
Existem pedras nas mãos
mas não as uses
comigo

meu amor
e meu amigo
*
Existem pedras sedentas
de amor e muito perigo
*
Não queiras que elas inventem
motivo de meu castigo

*
Maria Teresa Horta, in "Minha Senhora de Mim"




sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Dança dos Pássaros



Ao meu neto Luca que brevemente faz 4 anos.

Segue o sonho 
que desliza nas asas do mítico condor.
Voa 
para além da bruma do pensamento.
Ombreia 
a espuma das ondas, 
face a face
com o despertar da vida.
A hora floresce.
No mar o sibilo dos marinheiros.
Ao longe o ruído do mundo
acorda as flores e os pássaros.
A luz da tarde se avizinha.

E no abissal furacão  
a vida se pronuncia.



quinta-feira, janeiro 12, 2017

Código da Estrada

Este é o meu actual livro de mesa de cabeceira.



Confesso: 
- não conduzo muito mal
- conheço toda a sinalização rodoviária (acho eu!)
- treinei-me a circular em rotundas (agradeço à Junta de Freguesia a proliferação de rotundas que existem nas imediações de minha casa)
- respeito os limites de velocidade dentro das localidades (nas auto-estradas já é outra coisa, às vezes)
- não buzino, de noite, dentro das localidades e muito menos perto de hospitais
- abrando nas passadeiras e dou passagem aos peões
- etc, etc, etc…

Pois… mas não sou uma condutora perfeita, confesso também!
Porque...
… desconhecia por completo que, em caso de acidente, só deveria chamar a polícia se estivesse morta ou ferida.

Pois é… já lá vai o tempo que, quando não havia testemunhas
e o condutor causador do acidente enchia o peito de que não era o culpado, chamar a polícia para fazer medições e o respectivo auto, era solução. Ah… e não deveríamos mexer nos carros até à sua chegada!

A minha ignorância! Devia ser multada por isso!

Ahhh… é verdade… já fui!

Pois é… para além de a condutora que literalmente me abalroou pelo lado esquerdo - depois de passar um semáforo, saída de uma rotunda - saiu aos gritos da sua viatura dizendo “olhe o que fez” que me deixou abananada, não havendo testemunhas (haver, havia, mas ninguém parou) chamou-se a polícia, depois de eu sinalizar o acidente, para as respectivas medições.

Assunto tratado, despedidas feitas, (sem assinatura de acordo amigável, diga-se) participação ao seguro que só quer dar 50% dos estragos, etc, etc..

Chega a novidade por correio: fui multada em 60 € por não remover a viatura enquanto aguardava a polícia.

Com base em...
"SECÇÃO XIV
Comportamento em caso de avaria ou acidente
Artigo 87.o
Imobilização forçada por avaria ou acidente
1 -Em caso de imobilização forçada de um veículo em consequência de avaria ou acidente, o condutor deve proceder imediatamente ao seu regular estacionamento ou, não sendo isso viável, retirar o veículo da faixa de rodagem ou aproximá-lo o mais possível do limite direito desta e promover a sua rápida remoção da via pública. 
…” 

Pois é… a partir da agora o CE vai ser a minha Bíblia! 

Vou lê-lo e relê-lo para não voltar a ser apanhada em infracções...

Ah… falta dizer que eles levaram calmamente o tempo que quiseram a fazer medições, ver documentos, a escrever o relatório de ambas as condutoras (dentro da viatura deles que estava frio e nós fora) sem se importarem se estavam a congestionar o trânsito ( que não estava!) ou a mandarem-nos retirar as viaturas do local. Só no final, aquando das despedidas, disseram para as retirarmos.

Pois é… noutra não caio, de certeza. Confiar na polícia! Só a chamo se morrer no acidente! Aí não me vão poder multar por não ter retirado a viatura.

Passem a multa aos meus herdeiros! eheheh

sábado, dezembro 24, 2016

Natal 2016




HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças. 

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.  

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Poema de Miguel Torga.

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O Sting e eu desejamos que o espirito Natalicio se estenda em todos os corações.
Dia 25 de Dezembro é a data do Nascimento do Menino Jesus.

Feliz Natal

Foto pessoal com o Sting a tomar conta do Presépio. 

sábado, junho 18, 2016

"Para um amigo cujo trabalho deu em nada” W.B. Yeats



Agora sabe-se toda a verdade,
Sê reservado e aceita a derrota
De qualquer garganta sem vergonha,
Pois como podes tu competir,
Sendo educado na honra, com alguém
Que, se se provasse que mente,
Não se sentiria envergonhado nem aos seus
Olhos nem aos dos vizinhos?
Educado para uma tarefa mais dura
Do que o Triunfo, afasta-te
E como uma corda sorridente
Tocada por dedos loucos
No meio de um lugar de pedra,
Sê misterioso e exulta,
Porque acima de tudo
Isso é o mais difícil.


in, "Os pássaros e outros poemas"


terça-feira, maio 24, 2016

APELO


Noell S. Oszvald


Quem quer que sejas, vem a mim apenas
De noite, quando as rosas adormecem!

Vem quando a treva alonga as mãos morenas
E quando as aves de voar se esquecem.

Vem a mim quando, até nos pesadelos,
O amor tenha a beleza da mentira.

Vem quando o vento acorda em meus cabelos,
Como em folhagem que, ávida, respira...

Vem como a sombra, quando a estrada é nua,
Num risco de asa, vem, serenamente!

Como as estrelas, quando não há Lua
Ou como os peixes, quando não há gente...

Pedro Homem de Mello, in "e ninguém me conhecia", 
a págs.73 (2004)


quinta-feira, março 31, 2016

Foi num Domingo de Páscoa...

Foi num Domingo de Páscoa que partiste. 
Parece que foi a semana passada e já faz dois anos. Não interessa o mês. O dia. Foi no Domingo de Páscoa e assim, até ao meu fim, o recordarei. 
Nada foi esquecido. De entre dor e sofrimento também houve momentos de grande felicidade.  
Dizer que esqueci o mau, era estar a mentir. Mas relembro, sobretudo, os dias bons. O amor que nos uniu. A nossa cumplicidade. 
O riso que entoava dentro de nós.  A felicidade que sentia quando te sentia bem.
Partiste de repente.  E não consigo recuperar dessa partida.
Há quem diga que as redes sociais não são para desabafos. 
Não fica bem mostrarmos a nossa sensibilidade, em suma, a nossa fraqueza.
Que importa isso?  
Sou como sou e não me importa o que os outros pensem. 
Preciso de soltar a minha alma. Especialmente nestes momentos. 
Quem me ouvirá nestes dias que acordam cinzentos? 
A quem dizer dos sentimentos controversos que me abalam em dias de tempestade espiritual?
Contigo, sofri, chorei, mas também tivemos belos momentos que tento preservar. 
Não porque partiste. Mas porque sou assim mesmo. Nos catorze anos da tua doença nunca te abandonei. Mesmo nos momentos de maior sofrimento não abandonei o barco. 
Fui boa capitã, não fui? Era assim que me chamavas, naqueles dias de bom humor que tanto me faziam sorrir.
O dia acordou cinzento. Tal como a minha alma.
Tu partiste no Domingo de Páscoa. 

E depois de todas as tempestades que nos assolaram é assim que NOS quero recordar.  
Estejas onde estiveres, recebe o meu sorriso.



terça-feira, fevereiro 02, 2016

QUERIA

Vincent van Gogh (Sunflowers)


Queria ser um girassol. 
Rodar ao sabor do sol.

Queria ser o mar 
de altas ondas verdes 
nos braços do firmamento 
o vento abraçar. 

Queria ser toda a ternura do mundo 
e num abraço fraterno 
mil rostos beijar.

domingo, dezembro 20, 2015

NATAL UP-TO-DATE




Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira